Do cotidiano ao crime: como as microviolências alimentam o feminicídio

Brasília, 27 de março de 2026

O feminicídio costuma aparecer nas manchetes como um evento extremo, um ato brutal que choca a sociedade. A indignação é imediata. Mas quase sempre o crime é tratado como um rompimento repentino da normalidade, como se tivesse surgido do nada. Não surge. Antes do feminicídio, existe um processo silencioso de erosão da dignidade feminina, alimentado por pequenas violências cotidianas.
Essas práticas são frequentemente chamadas de “microviolências”. São gestos, comentários e comportamentos que, isoladamente, parecem triviais, mas que carregam uma mensagem persistente de desvalorização da mulher. Piadas que associam a mulher à incapacidade, comentários que sexualizam ou ridicularizam sua presença em determinados espaços, a naturalização do ciúme como prova de amor ou a ideia de que o homem tem autoridade sobre a vida da parceira.
À primeira vista, parecem insignificantes. No entanto, como aponta o sociólogo Pierre Bourdieu, a dominação masculina se sustenta justamente por meio de formas simbólicas de violência que se tornam invisíveis no cotidiano. Quando práticas de controle e desqualificação são tratadas como normais, cria-se um ambiente cultural que legitima relações de poder desiguais.
No contexto brasileiro, esse fenômeno ganha contornos ainda mais graves. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registra milhares de assassinatos de mulheres todos os anos, muitos deles classificados como feminicídio, crime reconhecido na legislação brasileira desde 2015, com a promulgação da Lei do Feminicídio, que incluiu o assassinato de mulheres por razões de gênero no rol dos crimes hediondos.
No entanto, o feminicídio raramente começa com violência física. Antes dele, existe quase sempre um histórico de controle, intimidação e humilhação. O agressor vigia o celular da parceira, restringe amizades, decide como ela deve se vestir, desqualifica suas opiniões. Aos poucos, a autonomia da mulher é reduzida e sua autoestima corroída.
A socióloga brasileira Heleieth Saffioti já apontava que a violência de gênero se organiza como um “sistema”, no qual diferentes formas de dominação se reforçam mutuamente. O feminicídio, nesse sentido, não é apenas um ato individual de brutalidade, mas a expressão mais extrema de uma estrutura social que historicamente tolerou a desigualdade entre homens e mulheres.
Algo semelhante é defendido pela antropóloga Rita Segato, para quem a violência contra a mulher funciona muitas vezes como um mecanismo de reafirmação de poder masculino. Quando esse poder é questionado, seja pela autonomia financeira, emocional ou social da mulher, alguns homens recorrem à violência como forma de restabelecer controle. E é nesse momento que as coisas ficam mais tensas e propensas a uma escalada da violência, um rompimento e uam tentativa de restabelecer o controle.
Por isso, discutir microviolências não é um exercício de exagero moral ou sensibilidade excessiva. Trata-se de compreender que o extremo se alimenta do cotidiano. Quando a sociedade relativiza comportamentos abusivos, ela cria um terreno fértil para que a violência avance.
A objetificação feminina ela se prevalece e se torna feminicídio quando a sociedade passa a defender condutas violentas e condenar a mulher que tenta combater essas atitudes. Chamar o combate às microviolências de “mimimi” é ignorar como a violência contra a mulher se constrói no cotidiano. Antes do golpe, há quase sempre o comentário que humilha, o controle disfarçado de
cuidado, a piada que reduz, práticas pequenas que normalizam a desigualdade e autorizam o abuso. Desprezar essas manifestações não é sinal de lucidez, mas de cegueira social diante do processo que transforma desrespeito cotidiano em violência extrema.
A sociedade ainda se sente autorizada a julgar, comentar e relativizar as escolhas das mulheres, desde decisões consideradas “morais”, como aceitar ou recusar um relacionamento, até aspectos íntimos de sua vida pessoal. Muitas vezes, essas escolhas são tratadas como passíveis de questionamento, como se o “não” feminino fosse apenas uma posição negociável ou um convite à insistência. É nesse ambiente de relativização da autonomia feminina que surgem contextos extremos, nos quais a recusa de uma mulher deixa de ser entendida como um direito e passa a ser interpretada como afronta, dinâmica que ajuda a compreender casos como o de Alana.
No caso de Alana, a violência extrema teve origem em algo que deveria ser absolutamente simples: o direito de recusar um relacionamento. Após insistentes tentativas de aproximação, o agressor não aceitou a negativa da jovem ao pedido de namoro e a atacou com múltiplos golpes de faca dentro de sua própria casa. À luz das discussões sobre violência de gênero, o episódio revela como, em contextos marcados pela naturalização do controle e da insistência masculina, a autonomia feminina pode ser interpretada pelo agressor não como um direito legítimo, mas como uma afronta a ser punida.
Combater o feminicídio exige mais do que punir crimes já consumados. Exige reconhecer que as bases dessa violência estão presentes em práticas aparentemente pequenas: na piada que inferioriza, no controle disfarçado de cuidado, na ideia de posse que ainda marca muitas relações afetivas, na forma como a sociedade interpreta as decisões e escolhas da mulher.
Reconhecer a relação entre microviolências e feminicídio pode fortalecer significativamente as campanhas nacionais de enfrentamento à violência contra a mulher no Brasil. Ao evidenciar que o feminicídio não surge de forma repentina, mas é precedido por práticas cotidianas de controle, desqualificação e desrespeito à autonomia feminina, as campanhas podem deslocar o foco apenas do momento do crime para o processo que o antecede. Isso permite ampliar a conscientização social, incentivando que sinais considerados “pequenos”, como ciúmes excessivos, insistência após recusas ou controle sobre a vida da parceira, sejam reconhecidos como alertas de relações potencialmente violentas.
Além disso, abordar essas dinâmicas nas campanhas públicas contribui para transformar percepções culturais ainda enraizadas. Ao reforçar que o “não” de uma mulher é definitivo e que sua autonomia não está sujeita à validação masculina, políticas educativas e comunicacionais podem ajudar a desconstruir a ideia de posse presente em muitas relações afetivas. Campanhas nacionais que incorporem essa perspectiva não apenas informam, mas também promovem uma mudança simbólica fundamental: a de que prevenir o feminicídio começa no enfrentamento das pequenas permissões sociais que normalizam o desrespeito às escolhas das mulheres.
Se quisermos enfrentar de fato o feminicídio, precisamos olhar para aquilo que o antecede. Porque nenhuma violência extrema nasce no vazio. Ela cresce, lentamente, nas pequenas permissões que a sociedade concede todos os dias.


ilana Driele Mendes da Cunha Lima
Policial Civil da Paraíba. Bacharela em Direito, Mestre e Especialista em Direito Penal, Processual Penal e Segurança Pública. Autora de livros e artigos jurídicos.