Brasília, 20 de amio de 2026

A recente matéria publicada pela Folha de S.Paulo sobre o aumento dos gastos municipais com segurança pública traz um dado importante: os municípios ampliaram em 66% os investimentos no setor entre 2016 e 2025.
Mas a discussão apresentada ainda é superficial diante da realidade enfrentada diariamente pelas cidades brasileiras.
É nos municípios que a vida acontece. É no município que o cidadão nasce, cresce, trabalha, estuda, busca atendimento médico, assistência social e, infelizmente, também sofre os efeitos da violência e da ausência histórica do Estado.
Quando falta iluminação pública, é o município que resolve.
Quando há enchente, deslizamento ou tragédia climática, é o município que atua primeiro.
Quando uma família precisa de apoio social, é o município, através do CRAS, CREAS, FAS e demais serviços, que acolhe.
Quando uma escola precisa de proteção, é a Guarda Municipal que está presente.
Quando o comércio sofre com furtos e roubos, é o efetivo municipal que muitas vezes chega antes de qualquer outra força.
O debate sobre segurança pública no Brasil não pode continuar preso a uma visão ultrapassada de que os municípios devem apenas “auxiliar” os estados.
Os números mostram justamente o contrário.
Mesmo sem receber proporcionalmente os recursos necessários, os municípios vêm assumindo cada vez mais responsabilidades, investindo em videomonitoramento, inteligência, Defesa Civil, patrulhamento preventivo, proteção escolar, combate à violência doméstica, fiscalização ambiental e policiamento comunitário.
Segundo levantamento citado pela própria reportagem, os gastos municipais saltaram de R$ 7,4 bilhões para R$ 12,4 bilhões em dez anos.
Isso não ocorreu por acaso.
A população cobra segurança diretamente do prefeito, da Guarda Municipal e das estruturas locais. O cidadão não diferencia competência constitucional quando sofre um assalto na porta de casa ou vê sua comunidade dominada pelo tráfico.
Além disso, a expansão das Guardas Municipais demonstra uma transformação irreversível no sistema de segurança pública brasileiro. Dados do IBGE apontam crescimento expressivo dessas instituições nos últimos anos, consolidando o município como ator fundamental na prevenção da violência.
Hoje, milhares de Guardas Municipais atuam armadas, capacitadas e integradas ao Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), realizando prisões, atendendo ocorrências, combatendo facções criminosas e protegendo equipamentos públicos.
A própria evolução legislativa comprova essa realidade.
O Senado Federal aprovou a PEC 37/2022, que reconhece formalmente as Guardas Municipais — ou Polícias Municipais — como órgãos de segurança pública previstos na Constituição Federal.
A proposta permite aos municípios exercer:
- policiamento ostensivo local e comunitário;
- proteção de bens, serviços e instalações;
- atuação integrada com as demais forças de segurança;
- ações preventivas em seus territórios.
Esse reconhecimento não surgiu por “vaidade institucional”. Surgiu porque os municípios já fazem segurança pública na prática há muitos anos.
O que existe hoje é uma enorme contradição federativa:
os municípios recebem menos recursos, mas assumem cada vez mais responsabilidades.
Enquanto União e estados concentram a maior parte do orçamento da segurança pública, são as cidades que lidam diretamente com:
- população em situação de rua;
- dependência química;
- violência escolar;
- ocupações irregulares;
- desastres ambientais;
- tráfico em comunidades;
- perturbação do sossego;
- vandalismo;
- proteção patrimonial;
- segurança em unidades de saúde e educação.
Tudo isso impacta diretamente a sensação de segurança da população.
Outro ponto ignorado em muitos debates é que a prevenção nasce no território municipal.
Segurança pública não se resume a repressão policial. Segurança envolve:
- urbanismo;
- iluminação pública;
- educação;
- assistência social;
- esporte;
- cultura;
- mobilidade;
- fiscalização urbana;
- proteção ambiental;
- defesa civil;
- ocupação ordenada dos espaços públicos.
Ou seja: segurança pública começa no município.
É impossível enfrentar o avanço das facções criminosas sem fortalecer a presença do Estado nas comunidades locais. E quem está diariamente nesses territórios são os municípios e suas Guardas.
A FENAGUARDAS defende que:
- os municípios tenham acesso proporcional aos fundos nacionais de segurança pública;
- as Guardas Municipais recebam padronização nacional de formação e estrutura;
- haja valorização profissional;
- exista integração real entre União, estados e municípios;
- e que o reconhecimento constitucional venha acompanhado de financiamento adequado.
Não é aceitável exigir que os municípios façam mais com menos.
Os prefeitos, guardas municipais e servidores municipais já sustentam grande parte da segurança cotidiana do Brasil.
O cidadão vive no município.
O problema acontece no município.
A primeira resposta vem do município.
E é exatamente por isso que os municípios precisam deixar de ser tratados como coadjuvantes na segurança pública brasileira.
Fonte: FENAGUARDAS

