“FEMINICÍDIO E VIOLÊNCIA VICÁRIA: PROPOSTAS PARA UMA PROTEÇÃO QUE VAI ALÉM DAS APARÊNCIAS”

Brasília, 01 de março de 2026

O feminicídio no Brasil é um crime previsível. Em 2025 registramos 1518 vítimas, a maioria sem acesso à rede de proteção. O desafio de 2026 não é apenas das forças de segurança ou do jurídico. Precisamos de políticas que enfrentem o machismo estrutural e o abuso de poder que silencia as vítimas.

Te convido a conhecer a minha história, onde o “direito falhou, mas a mãe venceu”, uma jornada da calçada à reconquista do amor.

Eu era a provedora. Eu mantinha o teto, a empresa e os sonhos. Mas, no escuro, o “marido ideal” agredia meu filho pelas costas. Quando a verdade apareceu e eu tentei lutar, o chão se abriu: meu pai, um dos advogados mais influentes da cidade, usou todo seu prestígio jurídico para me maltratar ainda mais. Descobri que eu não enfrentava apenas o agressor, eu enfrentava o prestígio e o poder. O machismo estrutural falou mais alto que o amor de um pai por uma filha, que preferiu acolher um agressor que a sua própria filha. Ali minhas mãos foram atadas. Como denunciar, se a pessoa que melhor conhece os caminhos da lei era quem me ameaçava com o peso dela? O conhecimento jurídico, que deveria ser um escudo, foi usado para me amedrontar e encurralar.

Fui expulsa de casa pelo meu próprio pai, apenas com a roupa do corpo, caluniada para familiares e amigos, refém de uma trama suja, desamparada por quem deveria ser meu protetor, meu super-herói. O golpe de mestre da crueldade deles foi me separar do meu filho: enquanto estava tentando salvar a minha vida, pois fui ameaçada com uma faca para sair de casa expulsa, eles usavam a sua força para impedir que o meu filho viesse comigo, usando o medo que o “juridiquês” dele o garantia.

O poder não entende a dor de uma mãe que teve seu filho arrancado dos braços. Perdi um ano de seu desenvolvimento, perda essa que não foi a primeira, pois desde seus primeiros anos de vida precisei me ausentar para levar o sustento para casa. Eu saí daquela casa sem nada, sob o olhar de um pai que usava sua autoridade para validar um monstro, saí sem meu bem maior, sem minhas roupas, minha dignidade, destruída, mas decidida a provar que nenhuma influência é maior do que o direito à vida e à segurança. O que eu vivi é o que muitas mulheres vivem, que é o abuso de poder, homens que usam o sistema como armas letais, usando a dogma jurídica como opressora.

Hoje meu empenho em políticas públicas tem alvo claro: combater o abuso de poder institucional. Ninguém por maior que seja seu currículo, sua conta bancária, deve estar acima da Lei de proteção à Mulher. Se o sistema da minha cidade falhou comigo, eu lutarei para que o Estado seja imparcial e forte o suficiente para desarmar os “doutores” que protegem agressores. Discutir a corrupção sistêmica e o tráfico de influência é primordial para criação de protocolos no atendimento às vítimas. Podemos discutir protocolos como uma blindagem onde delegados e juízes não sejam influenciados pelo renome de advogados e posição que ocupam em caso de violência doméstica, promover uma assistência jurídica gratuita e especializada para equilibrar forças quando a vítima enfrenta agressores com alto poder aquisitivo ou influência política, jurídica ou policial. Além disso, ter como medida a prioridade de guarda, para impedir que o “prestígio” de um avô ou do pai impeça a retirada imediata da criança do ambiente de risco.

Precisamos emergir com políticas públicas mais eficazes, é urgente e necessário, o Estado precisa enfrentar a invisibilidade da violência infantil doméstica, de como o agressor manipula a mãe para que ela não veja o que acontece com os filhos, onde o ponto alto é a violência vicária. É preciso ser urgente a busca e apreensão de menores, o Estado deve garantir que a mãe saia com a criança. Além disso a capacitação de profissionais que recebem essa mulher deve ser periódica. Como vítima, não queremos ouvir: “mas por que isso aconteceu?” “por que você não saiu antes”? “você deve ter feito algo para provocar isso”? “pelo menos ele é um bom pai”, dentre outras…perguntas que tentam justificar o agressor, perguntas essas que tiram a força de uma agressão e nos colocam vulneráveis e reféns de um sistema.

Eles acharam que eu morreria na calçada onde me jogaram, mas eles esqueceram de quem eu era. O primeiro ano foi um deserto, sem casa, sem empresa, e seu o abraço do meu filho, sem o beijo de boa noite. Tive que passar por cima de muitas coisas e voltar ao mercado de trabalho como se eu nunca tivesse liderado nada. Cada dia era um degrau da minha nova jornada, eu não estava apenas sobrevivendo, eu estava me reamando, descobrindo uma Tatiana cheia de potencialidades. O deserto é só um lugar de passagem!

Enquanto eles usavam as aparências e o prestígio, eu usava a verdade e o suor para reconstruir minha dignidade. Foram 365 dias de silêncio, dor, medo, choros, mas eu nunca parei. Descobri que sou imparável. Aquela mulher que foi jogada na rua com a roupa do corpo morreu naquele dia para dar lugar a uma mulher inabalável. Hoje meu sucesso não é medido pelo faturamento da minha empresa, mas pela paz que o meu lar carrega, pelo sorriso do meu filho, hoje um lindo rapaz de 19 anos cheio de virtudes. E onde era lugar de medo, deu lugar ao amor, eu fiz algo que eles acreditavam ser impossível: eu construí uma família de verdade.

Hoje eu vivo o que antes só conhecia nos livros, construí um lar onde o respeito não é negociável e onde o amor não é uma ferramenta de controle. Encontrei um parceiro que não precisa diminuir a minha luz para brilhar, e que caminha ao meu lado com a lealdade que nunca soube que existia. Meu filho experimenta o amor de um verdadeiro pai e amigo, ele sabe o que é um abraço sem medo, ele sabe que a nossa casa é o porto seguro, não um campo de batalhas.

Para as mulheres que ainda estão no escuro, ouvindo que “ninguém mais vai te querer” ou que “você vai destruir a vida do seu filho se for embora”, eu deixo meu testemunho: existe vida, e existe uma vida extraordinária depois da tempestade. Eu perdi uma empresa, perdi “amigos”, perdi o apoio do meu sangue e fui jogada na rua, mas ganhei a liberdade de criar minha linhagem baseada no amor verdadeiro.

A justiça dos homens pode tardar e pode ser manchada pela influência, mas a força de uma mulher que luta pela verdade é imparável. Eu venci, nós vencemos! quando uma mulher perde todas nós perdemos, e quando uma mulher vence, todas nós vencemos. Quero que a minha história sirva de argumento para criação de programas de autonomia econômica para vítimas, como proteção de ativos, impedindo que o agressor não tome a empresa ou os bens da mulher durante o processo de separação, aceleração em processos em caso de alienação parental e violência, um ano é uma eternidade na vida de uma criança e a reinserção profissional por políticas que ajudem mulheres que perderam tudo a voltarem ao mercado de trabalho rapidamente para garantirem sua subsistência e a dos filhos.

Minha história é um aviso para os “donos do poder”, vocês podem tirar o teto de uma mulher, podem tirar o seu sustento e até a sua paz por um tempo. Mas, se ela estiver viva, ela vai voltar para buscar tudo o que é dela de direito.

Não aceite o silêncio como destino. O deserto é longo, mas ele tem fim. A volta por cima não é apenas sobre recuperar o que foi perdido, mas sobre construir algo tão sólido e tão cheio de amor que o passado não consiga mais te alcançar.

Se eu consegui, você também consegue!

Tatiana Aguilar

Neurocientista Clínica, Especialista Clínica em Transtornos, Perita Criminal em Crimes contra a Mulher e de Abuso Sexual contra criança e Adolescente.

 

Tatiana Aguilar
Neurocientista Clínica, Especialista Clínica em Transtornos, Perita Criminal em Crimes de Violência contra a Mulher e Contra Abuso Sexual de Crianças e Adolescentes